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Trote na FAMEMA

Vamos falar sobre o trote?

Sabe-se que nesta época do ano as listas dos aprovados nos vestibulares estão sendo divulgadas! Em consequência desse fato, as Faculdades e Universidades tornam sempre os olhares para o tema “Recepção dos Calouros”. O Diretório Acadêmico Christiano Altenfelder (DACA) se mostrando contra qualquer prática trotista e buscando compreender e debater cada vez mais sobre o assunto, preparou o conteúdo abaixo para continuarmos refletindo sobre esse tema tão pertinente. O movimento estudantil vem se mostrando cada vez mais engajado em fazer com que esse momento seja o mais harmonioso possível para aqueles que estão chegando na FAMEMA e continuaremos lutando por uma recepção acolhedora de fato.

Você sabe o que é Currículo Oculto e como ele atua na formação do estudante de medicina?


O “Currículo” é determinado pelas matérias obrigatórias do estudante; enquanto o termo “oculto” define algo que não é estabelecido objetiva ou oficialmente, apesar de existir.

O Currículo Oculto, portanto, são as regras obrigatórias escondidas por trás da formação do estudante, seguidas sem que verdadeiramente corroborem para tal. Trata-se das relações entre os indivíduos da área médica, sejam eles estudantes ou professores, que obedecem a regras e tradições passadas ao longo dos anos, sem uma reflexão sobre as motivações dessas regras e de por que são mantidas. São “leis” estabelecidas e tidas como naturais e verdades absolutas. No entanto, afetam a forma com que se constrói o futuro profissional.

Um exemplo que atua mantendo essa relação é a hierarquia dentro da medicina, na qual o respeito mútuo entre todos os estudantes e profissionais é deixada de lado em pró de uma escala de poder: na qual o sexto anista merece maior respeito dos estudantes de anos mais novos, e o quinto anista deve respeito ao sexto, mas deve ser respeitado pelos quarto, terceiro, segundo e primeiro anistas. Essa “pirâmide” de poder também inclui residentes e professores, que se colocam acima de qualquer estudante da graduação. No entanto, tal respeito não se resume apenas a acatar o que é dito, mas também se submeter ao que é determinado por aqueles que estiveram há mais tempo no curso, desconsiderando opiniões dos mais novos, de forma hierárquica e, por vezes, humilhante. O que poderia ser apenas um motivo para transmitir experiência de curso e/ou carreira para aqueles que estão há menos tempo na faculdade se torna um fator que permite diversos tipos de violência (desde verbais até físicas), além de menosprezo pelo passado vivido individualmente de cada ser que compõe o corpo social que é uma faculdade.

Esse conceito de hierarquia é responsável pelo Trote, atitude aplicada aos calouros com a justificativa de “integração” e “tradição”. Com base nessas ideias de superioridade de anos mais velhos, tem-se a “permissão” dada pelo Currículo Oculto de se receber os calouros da forma que mais convém àqueles que já estão na faculdade, independente de quão violento possa ser esse rito de passagem. Se não fossem pelas justificativas levadas por anos nas falas de quem ainda opta por manter tais atitudes, as violências cometidas jamais seriam aceitas socialmente, já que são caracterizadas pela despersonalização de cada calouro e pela introdução da ideia de que o primeiro anista não merece respeito nenhum dos outros indivíduos da faculdade. O conceito de integração foi tão deturpado, que os estudantes de medicina não conseguem enxerga-lo sem o trote, sem a hierarquia, sem o currículo oculto, mesmo que seu significado mais simplificado seja apenas a confraternização mútua para um bom acolhimento dos novos. Para piorar, o conceito de tradição não deve justificar nenhuma atitude, já que é visível como nossa sociedade se altera cotidianamente na tentativa de abandonar preconceitos e opressões tradicionalmente culturais, que são passadas para nós como regras que devem ser mantidas, mas são responsáveis por todo um contexto de formação médica debilitada.

Não é apenas uma relação danosa dentro da graduação, pois quando um estudante de um ano mais velho acredita ser superior àqueles que acabaram de entrar, também é possível (e comum) que se sinta superior aos próprios pacientes, ignorando a horizontalidade da relação médico-paciente e roubando para si o protagonismo da consulta, já que se sente o portador do conhecimento e despreza os que tiveram menos oportunidades que ele, assim como desprezava calouros, ou melhor, “bixos”. É possível notar nesse cenário como o médico e o estudante de medicina também se colocam acima de outros profissionais e estudantes da saúde. Voltando ao conceito de tradição, é em cima da cultura de “glorificação” da medicina que essas situações são construídas.

Além da hierarquia e da violência do trote, há o comum uso de apelidos. O grande problema é a possibilidade de se apagar toda a personalidade do estudante e reduzi-lo a um “título”, muitas vezes reunido de preconceito e conceitos deturpados que não deveriam ser propagados por estudantes de uma área da saúde. Quando é exigido que o calouro diga seu apelido ao ser perguntado seu nome, torna-se claro como essa despersonalização é feita, independente do conforto e do gosto daquele que foi apelidado. Afinal, ele só precisa seguir as regras.

Por último, devemos nos atentar aos hinos e palavras de ordem emitidas por alguns estudantes. Muitos deles estão recheados de conceitos machistas, misóginos (ódio às mulheres), racistas e homofobicos. Esses conceitos são perpetuados no Currículo Oculto e interferem na forma com que mulheres, negras e negros e a população LGBT se inserem na medicina. Tanto como estudantes e profissionais, que são diversas vezes subestimados e possuem suas carreiras dificultadas pelo constante preconceito vivido, quanto como pacientes, que sofrem quando o tratamento é carregado de noções deturpadas de tal cultura enraizada na formação médica. Exemplos nítidos são: violências obstétricas e ginecológicas, principalmente contra mulheres negras e desrespeito à orientação sexual e identidade de gênero. Ou seja, ideias “apenas” verbais que são entoadas em hinos durante a graduação refletem diretamente no tratamento das minorias durante a atuação médica, já que a empatia e a percepção da violência são extremamente reduzidas nesses contextos.
São por esses motivos, que quaisquer relações criadas que tenham origem na hierarquia e na marcação do calouro, principalmente no trote, são repudiadas, pois são frutos de uma mesma raiz violenta. Independente da atenuação desses atos, ou da justificativa de não existir propostas iniciais de intimidação, tampouco da colocação do trote como uma “escolha” do calouro (que é coagida pela massa), todos os casos de trote possuem a mesma origem e apontam para manutenção do Currículo Oculto.
É incoerente que estudantes e profissionais de medicina continuem promovendo a violência (não só física, mas também verbal, moral e psicológica) entre si. Queremos que tal curso seja cada vez mais humanizado, e para a formação de profissionais com empatia e sensibilidade com todos os seres humanos é necessário um Currículo limpo de tais práticas tão incorporadas quanto danosas. Faz-se necessário que todas as instituições da faculdade, juntamente com os estudantes e a direção sejam extremamente contrários a tal cenário e trabalhem para que seja extinto.

O DACA tem como objetivo atuar de forma árdua para que nenhum derivado do Currículo Oculto e do Trote seja mantido na FAMEMA e que nossa formação seja cada vez mais humanizada e igualitária.

Fontes:
Cartilha “Trote e Currículo Oculto:a formação médica para além do que se vê” – CoCut, DENEM, 2015
(acessível em: http://www.fsp.usp.br/site/dcms/fck/file/Trote%20e%20curri%CC%81culo%20oculto.pdf)

Experimento sobre tradição – vídeo compartilhado de https://www.youtube.com/watch?v=MgqIAI45-oQ