Trote: o mito do rito de passagem em desconstrução

A aprovação no vestibular é, muitas vezes, o ponto final de um doloroso processo de esforço e dedicação que é a preparação para as provas que dão acesso ao ensino superior. Para muitas pessoas, a aprovação não significa apenas o início da faculdade e o pontapé inicial de uma carreira profissional, mas também o início da vida adulta. Esse processo de transição, entretanto, não está imune às dinâmicas de poder que disputam seu significado e propósito.

Ao longo da História das Universidades, a correlação de forças no âmago deste processo pendeu ao estabelecimento do Trote enquanto forma hegemônica de introdução do calouro ao contexto universitário. Ou seja, o trote apresenta-se hoje – falaciosamente – como a única forma dos novos estudantes interagirem com seus colegas veteranos. Entre os gestos que compõem o trote estão a desqualificação e a extirpação da identidade dos calouros e calouras, por meio de apelidos (que com frequência miram a sexualidade, etnia ou algum traço de aparência física); bem como sua violência física, moral, psicológica e sexual, incluindo a mobilização do calouro para atividades compulsórias, exposição ao ridículo, humilhação e constrangimento público e, evidentemente, ostracização daqueles que se negam a fazer parte dessa “recepção”.

Essas práticas ganharam base de sustentação em um ambiente omisso e permissivo que encontra sua gênese na naturalização da violência ao longo da História. Travestido de “rito de passagem”, é através desse disfarce que os trotistas buscam inserir os calouros em cadeias de poder que têm como função principal a propagação de valores conservadores, como a Homofobia, o Machismo e o Racismo, dando início a uma convivência hierárquica e violenta que mantém-se após a conclusão do ensino superior e cuja função é definida pela manutenção do estado de coisas em nossa sociedade.

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Após ampla divulgação de casos de violência brutais, incluindo estupros e assassinato, o Trote tem sofrido forte desgaste na sociedade civil. Recentemente, a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) presidiu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar e investigar as violações de direitos humanos nas universidades paulistas, e ofereceu plataforma para vítimas exporem verdadeiras redes de poder baseadas na hierarquia e violência estabelecidas em diversas faculdades de medicina e outros cursos, e que são responsáveis pela tradição do trote e outras formas de violência no ambiente universitário. Apesar do Trote estar se tornando progressivamente menos aceito, é necessário nos policiarmos, já que esse tipo de prática já demonstrou ser capaz de se ressignificar, manifestando-se de formas mais brandas, mas igualmente violentas, servindo essencialmente aos mesmos propósitos.

O Diretório Acadêmico Christiano Altenfelder – DACA – tem sido a principal ferramenta dos estudantes na luta contra o trote universitário. Muitos avanços foram conquistados graças ao processo de luta e denúncia do movimento estudantil. Entretanto, o DACA insiste em continuar se colocando como espaço de convivência horizontalizado como alternativa à forma violenta e desigual proposta pelos trotistas. Acreditamos que a recepção dos calouros pode ser cada vez melhor, plena e equânime. Por isso, convidamos os calouros a conhecer seus novos colegas de faculdade em uma confraternização que ocorrerá durante todo o dia 28-02, quando os membros da gestão do diretório estarão na Sede dos Diretórios para comemorarmos juntos a chegada da turma 50!

Por um ambiente univeritário livre de violência e hierarquia! TODA FORÇA À LUTA DOS ESTUDANTES!

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