O trote machista e o assédio na Faculdade

O trote é um ambiente propício para inúmeros tipos de violência no ambiente universitário, sendo o machismo uma das ferramentas utilizadas pelo trotistas para introduzir os calouros e calouras a uma cadeia de poder hierárquica, impor valores conservadores e oprimir, sobretudo, as mulheres recém-aprovadas no vestibular. O machismo é uma forma de opressão e exploração, que coloca o gênero feminino como submisso em benefício dos homens. Para afirmar essa desigualdade, criam-se ideologias que assumem que a mulher é inferior ao homem (mais desequilibrada, frágil, dependente, um objeto sexual de intelectualidade rasa) e por isso deve servir e estar a disposição dele. Tais estereótipos de gênero são reforçados tanto de maneira escancarada, por meio do abuso sexual e moral, mas também de maneira velada por uma roupagem de brincadeira e naturalização da violência nos ambientes trotistas.

Por diversos anos, durante os trotes, as calouras foram constrangidas e submetidas a simularem práticas sexuais, dançarem sensualmente para agradarem  veteranos e colocadas em páreo para eleição de uma “Miss”. São inúmeras também as músicas “de torcida” cujas letras expressam a mulher em posição humilhante, de submissão e como objeto sexual que serve exclusivamente ao prazer masculino, além conotações homofóbicas. Há grande pressão para que as calouras participem dessas atividades com a justificativa de que, se não o fizerem, serão “caretas” e não irão se enturmar com o restante da seus colegas, calouros ou veteranos. Isso nada mais é que coerção para que as meninas se submetam a todo e qualquer tipo de exigência do novo grupo social ao qual querem se integrar. Por mais que afirmem que essas “atividades” ou “atitudes” são mera brincadeira, são, na realidade, atos de violência, fruto de uma cultura que inferioriza e objetifica as mulheres, e que em vez de gerar integração, só reforçam a exclusão que elas sofrem nos espaços sociais de poder.

Também durante as festas e momentos da recepção da nova turma, as mulheres em geral, mas em especial as calouras, sofrem frequentemente situações de assédio e coerção. Devido a ideologia machista e hierárquica, os veteranos sentem-se donos e com acesso livre aos corpos das calouras, hostilizando-as, quando não estão interessadas, e violando os limites impostos por elas. É preciso deixar claro que quando uma mulher não quer ser tocada, beijada ou dançar com alguém, ela não quer e pronto. Não é não! Insistir e tocá-la contra a sua vontade são formas de violência de gênero que não podem ser toleradas. E atenção! Considerar que uma mulher alcoolizada e vulnerável é uma boa oportunidade para fazer investidas, faz parte da cultura do estupro! Toda forma de relacionamento deve implicar o consenso das partes envolvidas. E uma pessoa que tenha bebido além da conta não tem condições de dar ou não seu consentimento.

403604_351883081502458_100000423070782_1236145_1776993372_n[1]

Independente do comprimento da sua roupa, da sua forma de se expressar, de dançar ou de ter bebido, toda mulher merece ser respeitada frente aos limites que ela mesma estabelece. Isso não é condicional, é um direito. O corpo da mulher não é objeto de cobiça, de insinuação, nem está à disposição dos homens. O corpo da mulher é somente dela, para que ela faça dele o que quiser. Conhecer novas pessoas, conversar, se atrair, dançar junto, ficar, beijar, transar (e o que mais quiser) pode e deve fazer parte da convivência entre os estudantes. Mas o consentimento e o respeito mútuo é essencial para que a paquera não se torne um assédio, uma violação.

A entrada na Faculdade deve ser marcada pela confraternização saudável entre veteranos e veteranas, calouros e calouras, e não por violência. Precisamos parar de reproduzir práticas que, legitimadas como uma simples brincadeira, desvalorizam grupos sociais e contribuem para a manutenção da desigualdade de gênero. O Feminismo é o movimento social que coloca em xeque a cultura machista e luta pela igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, através da destruição das estruturas sociais que fundamentam a desigualdade e formação de novos valores. Essa construção de uma nova consciência perpassa pelo questionamento das práticas machistas, e criação de espaços de acolhimento, escuta ativa e empoderamento das vítimas, através da sua auto organização coletiva.

O Movimento Estudantil não se vê imune à reprodução do machismo. No entanto, se propõe a ser um espaço aberto e democrático, por onde podemos iniciar sua transformação e superação. Um espaço no qual as mulheres podem ter voz. Para tanto, o Diretório Acadêmico Christiano Altenfelder, órgão de representação das estudantes, gostaria de convidar todas as mulheres que se identificam com a bandeira de construção de uma Faculdade livre do trote machista e do assédio a trazer suas demandas, usar esse espaço para denúncia e acolhimento, e assumir o seu protagonismo na luta contra a opressão de gênero.

O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro realizará diversas atividades sobre essas temáticas na sede do Diretório. A primeira atividade do ano acontecerá no dia 3 de março, as 19h, e terá como tema “A mulher no trabalho em saúde”. Também será realizada uma atividade em conjunto com as estudantes da Unesp no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. E na sexta-feira, dia 11 de março, às 19h, também na sede do Diretório, será realizado um Cine Debate sobre a história do movimento feminista, com o filme “As Sufragistas”. Todos estão convidados a participar a fim de conhecer mais sobre e se integrar à luta feminista!

Pelo fim do trote machista!

Por uma Faculdade livre de opressão!

Toda força a luta das mulheres!

 

Deixe uma resposta