Universidade para quem?

As universidades são usualmente definidas como centros de referência e disseminação de todo o conhecimento útil adquirido pela humanidade. Em certa parte, trata-se de uma verdade, pois sua origem se dá no período no qual se sente a necessidade de gerir o conhecimento adquirido pela humanidade e dividi-lo no que era ou não interessante naquele período histórico. Essa estrutura da universidade não mudou, tendo ela se adaptado aos diferentes momentos históricos.

Hoje, na sociedade capitalista em que vivemos, a universidade, tal como em sua origem, cumpre a função de reproduzir o conhecimento útil para a sustentação da sociedade da forma em que existe hoje, além de produzir novos conhecimentos com a mesma finalidade. Neste cenário, a universidade cumpre com algumas finalidades específicas, tal como a formação de trabalhadores minimamente qualificados para cargos necessários para a reprodução do capital – seja através da forma física, enquanto técnicos, ou através de intelectuais que compreendam e saibam administrar esse sistema, como também é um Aparelho Ideológico do Estado, através do qual a burguesia, classe dominante, reproduz sua ideologia, corroborando para o processo de alienação da sociedade e sustentação de seu poder. É verdade, portanto, dizer que uma das funções da universidade é produzir conhecimento, mas devemos atentar a quem esse conhecimento produzido se destina, para, enfim, compreender qual papel a universidade cumpre na sociedade capitalista.

É importante observar, ainda, quais são os grupos sociais que hoje têm ocupado a universidade. Quem ocupa hoje as vagas universitárias é em sua grande maioria jovens brancos/brancas de classe média. Mesmo com o sistema de cotas que vem sendo ampliado, o acesso à universidade ainda permanece altamente elitizado. Além disso, a ausência ou insuficiência das políticas de permanência estudantil dificulta o prosseguimento do curso do estudante cotista. Na nossa sociedade altamente racista, os negros são ensinados desde a infância, principalmente através da mídia, quais são os lugares sociais que eles podem ou não ocupar. Dessa forma, as cotas raciais têm sido importantes para que os negros tenham representatividade dentro da universidade e também nos postos de trabalhos mais prestigiados, que são majoritariamente brancos. Porém, devemos ressaltar algumas questões: as vagas universitárias insuficientes, principalmente nas universidades públicas, impedem que o acesso seja realmente democrático, fazendo com que sempre seja privilegiado um grupo restrito de pessoas, mesmo dentro do universo das cotas sociais e raciais. Essa universidade sempre irá formar um grupo restrito de pessoas que irão continuar o processo de dominação na sociedade capitalista. Enquanto não tivermos o acesso universal e gratuito, os negros e pobres que adentram a universidade através do sistema de cotas continuarão produzindo e reproduzindo o conhecimento que servirá para oprimir aqueles que não se privilegiaram da barreira que é o vestibular.

Assim, lutar pelas cotas sociais e raciais e pela permanência dos estudantes cotistas na universidade é essencial e necessário para possibilitar um acesso menos excludente à universidade.  Porém, não devemos nos esquecer, de que, enquanto não transformarmos a função da universidade – o que pressupõe, necessariamente, a superação da sociedade capitalista em que ela está inserida -, a universidade continuará servindo a um determinado grupo social.

Enquanto estudantes de medicina, nosso conhecimento vai na contramão das reais demandas dos que mais precisam, afasta-se progressivamente dos trabalhadores enquanto se cega com os atrativos de uma medicina hospitalocêntrica, centrada na figura do médico e repleta de exames e protocolos que cada vez mais nos impedem de olhar nos olhos de quem nos procura. Nesse cenário, é preciso romper com esse caráter da nossa formação, compreendo as abstrações que permeiam nosso currículo, superando-as numa prática revolucionária e humana.

Para além da medicina, deve-se lutar por uma universidade que seja verdadeiramente popular, que seja vivida por toda a classe trabalhadora, que se proponha a construir conhecimento que auxiliem na superação da estrutura da nossa sociedade baseada na exploração do homem e que não faça favores aos que mais precisam, mas que seja construída por esses.

 

Laís C. Krasniak
Acadêmica da UFSC e coordenadora de Extensão Universitária da DENEM

Yvana Hafizza Snege de Carvalho
Acadêmica da FAMEMA e coordenadora de Extensão Universitária da DENEM

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