Que roupas os alunos da FAMEMA devem usar?

Que roupas os alunos da Famema devem usar? Será que roupas muito curtas, amplos decotes, bermudas e chinelos são adequados para estudantes de medicina? Recentemente, esse debate surgiu na comunidade acadêmica famemense e tem trazido as mais diversas perspectivas e opiniões. De um lado membros da direção, professores, com endosso de ex-alunos, alegam que “abusos” tem sido cometidos pelas roupas usadas, principalmente pelas moças que frequentam a faculdade. Decotes que distraem os estudantes da tutoria, shorts curtíssimos que escandalizam pais, saias que podem incitar o assédio de professores, chinelos que são inadequados para o ambiente acadêmico. “Pessoas com bom senso e ainda mais futuros médicos não devem se vestir assim” nos dizem. Por outro lado, estudantes do Diretório Acadêmico reclamam o direito de usarem a roupa que quiserem, se opondo a normatização da vestimenta no ambiente acadêmico.

Mas será que é só de roupa que estamos falando? Para além de shorts, chinelos, e da superficialidade das aparências, esse debate nos convida a discutir a roupa quanto símbolo social, a elitização e o status colocado à figura do médico e como as mulheres tem sido visadas por tais críticas. Também nos propomos a discutir que papel a Famema tem desempenhado na reprodução de valores sociais.

As roupas para além de meros panos cobrindo e protegendo o corpo, são um sinal claro de status e condição social, atuando como uma forma de distinguir o grupo ao qual o indivíduo pertence. Roupas fornecem um estímulo, uma insinuação visual para a cultura de classe do usuário. Ela serve como um símbolo de diferenciação social porque dá ao usuário alta visibilidade. Por exemplo, se você observar uma pessoa na rua com roupas esfarrapadas e sujas, sem sapatos, provavelmente pensará que trata-se de um mendigo ou sem-teto. Se, por outro lado, ver um homem trajado de terno, gravata e sapato social pensará ser ele um empresário, advogado ou alguém com posição de distinção social.

Desde que a produção de roupas deixou de ser artesanal e passou a figurar como mais um produto industrial, evidencia-se a necessidade de ser trabalhada como outro produto qualquer. Como produto, então, é natural que todos os seus símbolos sejam explorados à exaustão, com a perspectiva de venda, pelos anúncios comerciais e pelos meios de cultura de massa, como artigos em jornais e revistas, novelas e até músicas populares. Esses significados implícitos são explorados pela publicidade de moda para levar o consumidor a tomar sua decisão de compra, fazendo com que o adulto nem perceba que, ao comprar uma roupa, está praticando um ato altamente ideológico, intrínseco à sua formação. Quem nunca observou as sessões de dicas de moda para todas as ocasiões nos periódicos, os figurinos tão bem escolhidos usados pelos atores das novelas e músicas que reforçam a importância de se vestir bem como na letra da música Camarelo Amarelo, “tô na grife, tô bonito, tô andando igual patrão”. O indivíduo, enquanto consumidor, introjeta esses valores propagados e comporta-se exatamente em busca dessa diferenciação do grupo manifestada através da roupa. A compra de uma determinada peça do vestuário não é um ato tão simples quanto possa parecer, mas se relacionam inteiramente com o grupo ao qual o indivíduo pertence, considerando a divisão da sociedade em classes. (1) É simples distinguir, por exemplo, pessoas que moram no Morumbi e na favela ao lado, Paraisópolis pela roupa que compram. Os moradores do Morumbi tem acesso às requintadas boutiques dos shoppings, enquanto os moradores de Paraisópolis, comprarão roupas bem mais simples. Para os moradores do Morumbi é importante demonstrar o seu poderio econômico e que pertencem a sua classe social pela sua roupa de grife. Vestir-se como alguém de Paraisópolis, seja com os shorts curtos de uma “funkeira” ou com o boné e correntes de um “mano”, seria uma afronta aos valores de sua classe. Na base da moda, portanto, está a procura de uma adequação às normas do grupo social a que se quer pertencer; o indivíduo procura respeitar as regras do grupo e de não provocar uma reação negativa que pode fazer com que ele seja posto à margem. (1)

Frente a essa normatização exercida pela pressão social de determinados conjuntos sociais, voltamos nossa atenção ao grupo dos médicos a fim de estabelecer relações. A medicina é uma das mais requisitadas e importantes profissões existentes no mundo. Por isso, é preciso ter um grande conhecimento para se tornar médico, algo alcançado com longos anos de estudo. Para conseguir cursar medicina no Brasil é necessário um conhecimento escolar de qualidade — adquirido, principalmente, em escolas particulares e cursinhos caríssimos. Nossos médicos são formados, em sua maioria, por uma classe particular de pessoas. Pessoas que possuem status social, estudam em escolas particulares requisitadas, tiveram as melhores oportunidades e viveram uma vida abastada sem muitos problemas financeiros. São raros os médicos que não vieram desse grupo. Os salários dos médicos também tem papel na manutenção de um status quo da categoria. Os salários variam entre R$10 e R$30 mil mensais (dependendo muito do grau de especialização, tipos de serviços prestados e horas de trabalho), muito acima da média da maioria dos trabalhadores brasileiros. Frente a essa caraterização restrita da formação social da categoria médica, não a de se admirar que a maioria dos médicos vista-se com a distinção que sua classe social impõe.  Vestir bem, de forma mais formal, elegante e discreta faz parte de identificar-se quanto médico, que faz parte desse seleto grupo de pessoas de “berço de ouro” e altos salários.

Dado tal estigma social, estabelece-se uma expectativa dentro da própria relação médico-paciente. Os pacientes esperam que seus médicos demonstrem sua elitização pela sua aparência. Pesquisas revelam que pacientes sentem-se incomodados com profissionais que exibissem elementos de aparência excessivamente liberais, como uso de shorts e bermudas, piercing, sandálias, cabelos de cor extravagante, blusas mostrando a barriga e maquiagem carregada. (2) Percebe-se a partir desses resultados que pacientes reproduzem valores e expectativas frente aos padrões hegemônicos do que é considerado um médico na sociedade. É ofensivo ver um médico que não possua o porte hegemônico de sustentação de status e poder social — o homem branco, classe média com “cara de médico”. Não é à toa que médicas que vieram de Cuba, negras e que se vestiam de forma simples foram colocada como tendo “cara de empregada doméstica” por uma jornalista (3). Esses episódios reforçam o quanto os médicos não se consideram como qualquer trabalhador, como empregadas domésticas, pedreiros ou até mesmo como enfermeiros. São colocados em uma categoria acima de todas as demais, seja por sua especialização acadêmica, seja pelo ganho salarial. Médicos correspondem ao círculo específico das pessoas socialmente privilegiadas e que reproduzem determinados padrões burgueses. Aqueles que não correspondem a esses padrões são imediatamente sente rechaçados, a fim de serem moldados a esses padrões. A questão da vestimenta é uma expressão mínima que reforça a elitização médica e o distanciando de seu caráter quanto classe trabalhadora.

O Diretório Acadêmico Christiano Altenfelder acredita que não interessa a uma medicina humanista e democrática a perpetuação dessas relações de poder entre médicos, pacientes e demais trabalhadores. O médico não deveria ser colocado de forma superior, nem pelo afastamento econômico, acadêmico e nem mesmo pelas roupas que veste. A opressão vivida pelo médico em seu ambiente de trabalho, pelas aviltantes condições do sistema de saúde público e pela exploração dos planos de saúde é a mesma vivida por todos os trabalhadores brasileiros cotidiano seja nas profissões de menor prestígio social, como empregadas domésticas e varredores de rua, seja nas de maior prestígio, como advogados, professores, engenheiros e todos os profissionais de saúde. A elitização colocada à figura do médico somente reforça a distância de sua identidade de classe na luta por melhores condições de salário e trabalho. A categoria médica é por inúmeras vezes conduzida a lutas fratricidas, como disputas na reserva de mercado e xenofobia contra médicos estrangeiros, que enfraquecem os reais interesses dos trabalhadores brasileiros que é uma saúde de qualidade universal e equânime. Interessa de fato a classe trabalhadora sua total coesão e união pelo combate a seus exploradores no sistema capitalista.

Veja, não negamos a necessidade de vestimentas específicas no ambiente hospitalar que previnam infecções, assim como regulamentado pela NR-32. Contudo, tais medidas preventivas nada se relacionam a uma imposição de um padrão de aparência para o ambiente acadêmico, como o proposto atualmente por uma parcela de pessoas na Famema, que somente reforça a elitização desse ambiente. A academia (ensino superior) não deixa de ser outro espaço de acesso restrito que já peneirou grande parte da população brasileira. Apenas cerca de 19% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 anos frequentam o ensino superior no Brasil (PNAD, 2009). (4) Desta classe seleta também espera-se determinados padrões de vestimentas. Roupas mais conservadoras, ou formais, considerando também o corte de classe que existe entre os jovens que tem acesso ao ensino superior. Universitários que se vestem de forma mais liberal, tem tatuagens, meninos com cabelos compridos e meninas que usem roupas mais curtas já são julgados como pouco estudiosos, inadequados para o ensino superior e para exercerem a atividade profissional. A partir dessa análise podemos compreender porque são tão comuns comentários como “futuros médicos não devem se vestir de certa maneira”.

Para as mulheres que não se vestem dentro dos padrões, como shorts e saias curtas, decotes reveladores, então, o discurso vem carregado de outros argumentos, como “estão distraindo os colegas da atividade acadêmica” ou “um professor pode assediá-la e a responsabilidade será dela”. Por que as mulheres devido suas roupas devem ser repreendidas pela distração de seus colegas e pelo assédio que sofrer de algum professor? Ao se culpabilizar a mulher, estabelece-se uma relação de poder, entre um mero objeto sexual que está se colocando à disposição de um dominador que se distrai, que se rende a impulsos sexuais e precisa ser protegido disso. A normatização da vestimenta aqui age como uma função de atenuar a gravidade de um assédio e subtrai a autonomia dessas mulheres sobre seus próprios corpos e sexualidade. Nesse ponto, ressalta-se a fetichização erótica que é imputada no corpo da mulher por determinados discursos. A sociedade encara o corpo feminino como um objeto de erotização compulsório, sendo que para a mulher, não necessariamente, seu corpo representa esse valor. Seu corpo pode representar um instrumento do seu conforto e satisfação pessoal, sua forma de expressão das suas emoções e vontades, entre mil outros significados que NÃO somente relacionadas ao erotismo e ao desejo sexual masculino. Não é decisão das mulheres terem suas coxas, bundas, seios e barrigas como símbolos sexuais colocados ao desfrute dos homens. Uma roupa mais curta, um decote mais amplo, não pode significar simplesmente a forma como essa mulher se sente mais confortável com sua roupa ou que atende a seu gosto pessoal? Até onde a imposição de padrões deve interferir na individualidade e na autonomia feminina?

A mulher recatada, de vida sexual discreta, à espera do companheiro ideal, ainda é valorizada como modelo de conduta. A mulher que não se censura, vivendo de acordo com seus desejos sexuais, é tratada como inadequada. Uma forma de fazer esta mulher perder sua autonomia e se enquadrar no modelo recatado é considerá-la culpada por tudo de ruim que acontecer com ela, como ser assediada ou não ser levada a sério como profissional. Roupas são a forma pela qual essa distinção será tornada pública. Porém, a autonomia feminina passa pelo poder de cada mulher escolher como se vestir, como se comportar, sem necessariamente ter de se enquadrar nesses dois modelos como obrigação eterna e imutável. A mulher pode escolher inclusive oscilar entre ambos os modelos, não se enquadrar em nenhum, ou criar um terceiro mais adequado à sua personalidade e seus gostos. E, mais importante, ela não deve perder direitos nem pode ser julgada por causa dessas escolhas.

A normatização da vestimenta também reafirma, frente a esses argumentos, uma animalização dos alunos e professores (do sexo masculino). Como se a distração causada pelo desejo sexual e o assédio fossem coisas puramente instintivas sobre as quais eles não tem controle cognitivo. Será que vivendo em sociedade e ainda mais em um ambiente acadêmico, não conseguimos educar os homens para agirem de forma respeitosa com as mulheres, independente da roupa que elas estejam vestindo? E não deveria essa, inclusive, ser uma habilidade de um médico, receber uma paciente, com qualquer tipo de roupa, com respeito e sem pré-julgamentos? Os futuros médicos que hoje aprendem que assediar suas colegas e julgá-las pelas roupas que vestem, serão os profissionais que amanhã julgarão suas pacientes vítimas de abuso, maus tratos e assédio moral frente aos valores machistas que introjetaram. A  culpa da opressão sempre será da mulher e não da estrutura social machista em que vivemos que sustenta o quadro de violência contra a mulher, desigualdade salarial e de acesso ao poder público vivenciado pela mulher brasileira. Compreender que a liberdade da mulher de se vestir como quiser, sem medo de qualquer distinção, assédio ou violência também é lutar pela igualdade de gênero dentro da faculdade, em comunidades e em qualquer lugar.

A Famema não tem feito jus ao discurso humanista que prega para formação, permitindo-se perpetuarem estereótipos elitistas no ambiente acadêmico e sobre a medicina. O discurso machista também é predominante na argumentação da necessidade da regulamentação das roupas, transmitindo, assim, uma formação médica permeada de estereótipos preconceituosos e machistas. Num país em que cerca de 26% da população acredita em que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo, merecem ser atacadas” e 58,5% afirmam que “se mulheres soubessem se comportar haveria menos estupro” (5), a normatização da vestimenta na Famema só se mostra em alinhamento ao senso comum repressor da liberdade e integridade feminina. Queremos ser médicos que não julgam suas pacientes pela roupa, médicos que acolhem as vítimas de assédio e violência com compreensão, sem culpabilizá-las.

O DACA reforça seu compromisso na luta por uma formação médica feminista e humanista. Desejamos que os médicos que saiam da Famema se enxerguem iguais a qualquer outro trabalhador brasileiro, dando as mãos a outras categorias no combate à exploração e na defesa da saúde pública. Que nossas roupas não sejam barreiras entre nós, nem ostentem distinção e status. Nos colocamos em luta também contra a desigualdade de gênero e pela liberdade de mulheres se vestirem como quiserem sem preconceito, medo e opressão. A normatização da vestimenta, pode parecer algo pequeno, mas que reflete valores sociais com o qual não compactuamos e nos comprometemos a desconstruir a cada dia.

(1) Monteiro, Gilson. A METALINGUAGEM DAS ROUPAS. ECA-USP, 1997.
(2) J. Baddini-Martinez. Impressões de pacientes, médicos e estudantes de medicina quanto a aparência dos médicos. Faculdade  de  Medicina  de  Ribeirão  Preto,  Universidade  de São  Paulo,  Ribeirão  Preto,  SP,  Brasil, 2013.
(3)http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/08/jornalista-diz-que-medicas-cubanas-parecem-empregadas-domesticas.html  Acessado em 16/04/14
(4)http://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/artigos/acesso-ao-ensino-superior-no-brasil-equidade-e-desigualdade-social Acessado  em 16/04/14
(5)http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=21971&catid=10&Itemid=9 Acessado em 16/04/14

 

Ingrid Woerle de Souza

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