Trote: o mito do rito de passagem em desconstrução

A aprovação no vestibular é, muitas vezes, o ponto final de um doloroso processo de esforço e dedicação que é a preparação para as provas que dão acesso ao ensino superior. Para muitas pessoas, a aprovação não significa apenas o início da faculdade e o pontapé inicial de uma carreira profissional, mas também o início da vida adulta. Esse processo de transição, entretanto, não está imune às dinâmicas de poder que disputam seu significado e propósito.

Ao longo da História das Universidades, a correlação de forças no âmago deste processo pendeu ao estabelecimento do Trote enquanto forma hegemônica de introdução do calouro ao contexto universitário. Ou seja, o trote apresenta-se hoje – falaciosamente – como a única forma dos novos estudantes interagirem com seus colegas veteranos. Entre os gestos que compõem o trote estão a desqualificação e a extirpação da identidade dos calouros e calouras, por meio de apelidos (que com frequência miram a sexualidade, etnia ou algum traço de aparência física); bem como sua violência física, moral, psicológica e sexual, incluindo a mobilização do calouro para atividades compulsórias, exposição ao ridículo, humilhação e constrangimento público e, evidentemente, ostracização daqueles que se negam a fazer parte dessa “recepção”.

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Cotas para quem?

No ano de 2014, a FAMEMA adotou o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (PIMESP), que prevê a reserva de 15% das vagas para alunos que cursaram integralmente o Ensino Fundamental e Médio em Escolas Públicas (EP), e, dentro destes 15%, a reserva de 35% para alunos que se autodeclaram como Pretos, Pardos ou Indígenas (EP PPI). Esta porcentagem representa doze vagas PIMESP no curso de medicina e 6 no de enfermagem. Caso não haja alunos para preencher tais vagas, as mesmas são transferidas para a ampla concorrência.

O PIMESP, quando apresentado por Geraldo Alckimin, previa a reserva de 35% das vagas para alunos oriundos de escolas públicas em 2014, sofrendo aumento gradual até representar 50% das vagas em 2016. A FAMEMA, desde sua implantação, reserva apenas 15% das vagas.

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É possível encontrar no edital de inscrição para o vestibular a informação de que o aluno concorrente ao PIMESP só será considerado apto à vaga caso obtenha uma pontuação mínima equivalente a 90% da nota do primeiro colocado, no caso da medicina, e 70%, no caso da enfermagem. Entretanto, não é especificado em momento algum que caso não haja alunos “aptos” o suficiente em um curso, as vagas PIMESP podem ser transferidas para o outro.

Na última quinta-feira, 11/02/2016, fora revelada a primeira lista de aprovados no vestibular 2016 da FAMEMA. Para a surpresa de todos, dos oitenta alunos de medicina, apenas dois são cotistas do PIMESP, enquanto no curso de enfermagem, dos quarenta alunos, onze são cotistas do PIMESP.

O objetivo fundamental das cotas, sejam sociais ou raciais, é promover a inclusão, de alunos necessitados de alguma maneira, em todos os cursos superiores. Não é o que se constatou no último vestibular da FAMEMA, pelo contrário, ao invés de serem inclusos, os alunos cotistas foram segregados, uma vez que a maioria gritante das vagas referentes a cotas foram transferidas para o curso de enfermagem.

A necessidade de nota mínima para que os alunos cotistas sejam considerados aptos é contraditória à política de inclusão, pois requer que o aluno cotista, com toda a desigualdade enfrentada, obtenha um resultado semelhante ao primeiro colocado geral, em uma prova mecanicista, que avalia de modo duvidável as capacidades intelectuais do aluno. Além disso, a faculdade nem mesmo se nega a esconder o protecionismo elitista existente no curso de medicina quando exige dos cotistas da medicina a porcentagem de 90% da nota do primeiro colocado e para o curso de enfermagem 70%.

O diretório acadêmico Cristiano Altenfelder repudia o modo como as cotas são aplicadas na FAMEMA.

29 de janeiro, Visibilidade Trans para quem?

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Por Sofia Favero Ricardo, via Travesti Reflexiva

Estar visível não significa necessariamente algo que converta-se em um feedback saudável. Eu tenho uma relação agridoce com a visibilidade, costumo andar pelas bordas quando estou na rua, quase esbarrando nos muros, como se eu quisesse entrar neles e ser invisível. Finjo não estar atenta a qualquer sinal de que a minha identidade foi percebida, ela é berrante! Acho, aliás, chego a ter certeza que a palavra “aberração” está escrita em minha testa.

O preço que pago quando observam e apontam a minha travestilidade é muito alto, torno-me alvo de agressões, chacotas e deboches. Descobri que é mais fácil camuflar-me entre os considerados normais e tentar viver em paz.

“Olha lá a sua namorada passando!” Gritam para alguém enquanto ferem-me junto. Os dedos que me denunciam e são apontados para mim anunciam uma realidade: é um crime ser travesti. Quer dizer, quem sabe criminosos conseguem ter um reconhecimento social maior!

Ou até mesmo um caso clássico onde uma conhecida afirmava que havia mostrado fotos minhas para um primo, no desejo de ridicularizá-lo. “Bonita, né?” Ela perguntou antes de contar – “É travesti!” Não são todos que podem dizer que já viram travestis durante o dia, a sociedade chega a acreditar que as travestis são criaturas noturnas. Saem do chão quando anoitece, vão prostituir-se e voltam para o chão quando o sol começa a surgir. Afinal, o chão é o lugar determinado previamente para “gente” como eu.

Estudo em uma faculdade na qual sou considerada pelos discentes um corpo estranho que deve ser repelido. As pessoas reduzem a instituição de ensino superior a sala de aula e esquecem dos corredores, praças, banheiros e outros recintos. Em todos eles posso ouvir os cochichos, as mãos que são usadas para minimizá-los, os cotovelos que são empurrados, os olhos esbugalhados… Expressões corporais que sussurram-me: esse lugar não é pra você.

Quando Jared Leto ganhou o Oscar por interpretar Rayon, imediatamente lembrei-me dos teatros de outrora onde homens interpretavam mulheres pois a apresentação delas era proibida e, dos negros que eram zombados pelos brancos na caricatura abominável conhecida pelo termo “blackface”.

Será que não existia nenhuma pessoa trans qualificada para interpretar aquele papel? E a respeito de todos os outros filmes sobre o tema? Quantos foram interpretados por travestis, transexuais ou transgêneros? Dois? Um? Zero?

Se formos pegar a mídia brasileira iremos ter um longo histórico de pessoas cis parodiando pessoas trans em novelas. Em um caso recente uma travesti foi chamada para interpretar – pasmem – uma prostituta. Até porque esse é o destino dogmático de toda travesti, não é mesmo? Não existe travesti gerente, professora, faxineira, vendedora ou empresária. Imagina se colocam uma travesti médica na novela? O revertério que isso não iria dar na cabeça do telespectador!

“Quem esse povo da margem pensa que é? Até ontem estavam na esquina! Agora querem dizer na tv que conseguem um emprego formal?”

Eu tinha 18 anos quando assisti a Lea T em uma das suas primeiras entrevistas, até aquele momento eu havia internalizado que o meu ponto de chegada seria – em caso de sorte – o salão de beleza. Ter visto na televisão essa pessoa que compartilhava uma trilha similar deixou-me esperançosa, se ela conseguiu ocupar aquele espaço eu também conseguiria ocupar outros.

Só eu sei como a representatividade importa. Contudo, não quero supor que o papel das pessoas cis deva ser restrito ou que o papel das pessoas trans deva ser exclusivamente esse, eu estaria criando uma barreira indesejada. Quero propor apenas que a nossa inserção ocorra de forma que desconstrua a rede de estereótipos que orbitam ao redor das esferas midiáticas. Que a falta – acarretada pela transfobia – de travestis, transexuais e transgêneros em espaços públicos seja preenchida a partir da notabilidade dessas pessoas em locais de disputa. Que essa visibilidade naturalize a nossa presença, não mais causando a tradicional repulsa.

Ótimo filme, mas na minha luta nada acrescentou. Jared Leto imitando uma travesti somente consegue me dizer – novamente – uma coisa, que nem para interpretarmos a nossa própria existência nós prestamos”.


O DACA apóia a luta trans* e endossa a importância do dia da Visibilidade Transsexual no país que mais assassina transsexuais e travestis no mundo. Cerca de 90% das mulheres trans e travestis se encontram na prostituição, muitas vezes sem oportunidades no mercado de trabalho devido ao preconceito. É essencial reivindicar a inclusão das pessoas trans* no espaço das universidades e garantir o direito ao nome social. A luta por igualdade depende de todas as pessoas.

50 anos de FAMEMA

Hoje, 19 de janeiro de 2016, a Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA), chega ao seu 50º aniversário. Durante esse meio século, podemos dizer que a FAMEMA não viveu, sobreviveu. O que pretendemos contar a seguir é uma breve história de como a luta de seus estudantes, funcionários e professores forjou a instituição que conhecemos hoje.

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Na década de 1960, o Brasil vivia um contexto da falta de médicos, obrigando o Estado a criar, por decretos, novas faculdades de medicina. No entanto, engana-se quem pensa que tal expansão visa
va melhorar a qualidade do atendimento à saúde da população. Com a expansão da indústria farmacêutica pelo país, eram necessários mais médicos para prescrever tratamentos e realizar procedimentos, consumindo os insumos produzidos pela crescente indústria. Nesse contexto, em 1966, autoriza-se a criação da FAMEMA, em uma Marília que ainda estava em sua 3ª década de vida.

Apesar de autorizar seu funcionamento, o governo estadual não se mobilizou para a criação do curso de medicina em Marília, cabendo ao município, através da Fundação Municipal de Ensino Superior de Marília (FUMES), a sua instalação e manutenção, na época, cobrando mensalidades. A faculdade funcionava dentro do prédio que hoje abriga o Hospital das Clínicas (HC), que além de campo de prática aos estudantes, abrigava salas de aulas, laboratórios e até quartos para os professores, que muitas vezes vinham de São Paulo para dar aulas em Marília.

Ao longo dos anos, era crescente o sentimento de que a FAMEMA era uma instituição pública, de que não era necessário o pagamento de mensalidades, apesar de baratas comparadas a outras instituições de ensino, para se estudar ali, surgindo então a campanha para que o estado finalmente abraçasse de vez a instituição, a campanha para a sua estadualização e encampação por uma universidade.

Na década de 1980, a FUMES, que já sofrera com crises financeiras, viu a piora de sua financeira com a criação do SUS. O atendimento médico que antes era restrito aos segurados pela previdência social agora tornara-se universal e gratuito, no entanto, a lei que criou o SUS não determinou de onde deveria vir a verba para a sua manutenção, cabendo a própria FUMES o pagamento dos atendimentos realizados. Com isso, a crise financeira da fundação se agravou, não havendo dinheiro para pagar o salário de funcionários e professores, sendo que, muitos destes, aceitaram trabalhar de graça, já que também haviam se formado pela instituição. Numa tentativa de solucionar a crise, a FUMES determina o aumento das mensalidades, causando revolta nos estudantes, com greves que duraram mais de 100 dias, e a intensificação da campanha pela estadualização da FAMEMA.

Em 1994, ainda com a instabilidade financeira da fundação, os estudantes radicalizam a campanha pela estadualização. Buscam o apoio de deputados e deixam de pagar as mensalidades, realizando depósitos em juízo em uma conta administrada pelo DACA, culminando com a falência da FUMES e a estadualização da FAMEMA, através de um decreto assinado dentro da sede do DACA, simbolizando a importância da luta dos estudantes no processo. Pelo decreto, a FAMEMA deveria ter administração direta, devendo a FUMES dissolver-se ao longo dos anos, no entanto, isso não aconteceu, continuando esta a existir até os dias de hoje.

Em 1997, surge o projeto Uni-FAMEMA, uma nova iniciativa que buscava maior integração entre o ensino e o atendimento à saúde da população, financiado pela Fundação Kellogg. Por um lado, havia uma instituição de ensino que sofria com o sucateamento da educação e da assistência à saúde com o corte de verbas, precisando se reinventar; e do outro, uma fundação bilionária, que doava dinheiro através de incentivos fiscais para projetos que buscavam baratear os gastos do Estado com saúde e educação. Assim, o prédio do carmelo, um antigo convento, é alugado e ganha uma biblioteca e o laboratório morfofuncional; e surgem também os meios financeiros para a implantação do Problem Based Learning (PBL), metodologia de ensino que deu a FAMEMA projeção internacional no campo da educação médica.

A estadualização da FAMEMA não trouxe a solução dos seus problemas financeiros, eles continuaram e se agravaram ao longo dos anos, uma vez que a instituição nunca foi completamente abraçada pelo estado, e sim sustentada através da FUMES. Em 2007, com a proibição das contratações pela FUMES, surge a Fundação de Apoio à Faculdade de Medicina de Marília (FAMAR), coberta de suspeitas de irregularidade, que hoje são investigadas pela Polícia Federal. A FUMES passa a perder espaço dentro da administração da FAMEMA, e FAMAR a assumi-la, de forma irregular.

Em 2013, estudantes, funcionários e professores se unem em uma greve histórica. As pautas foram unificadas em torno da luta por uma FAMEMA que fosse de fato estadualizada, e não administrada através de fundações, e também por uma autarquização de administração direta via secretaria de saúde, não através de fundações, possibilitando assim a encampação da FAMEMA por uma universidade estadual. Apesar dos avanços, apenas os alunos tiveram conquistas, com a compra de novos livros para a biblioteca.

Em 2015, a FAMEMA passou pela maior crise de sua história, com o corte de 25% da verba repassada pelo estado, agravando ainda mais sua situação financeira instável. O pronto socorro foi fechado, cirurgias eletivas canceladas, e os ambulatórios reduziram seus atendimentos. Os estudantes se organizaram em torno de um dia de paralização e de um ato contra os cortes financeiros. Às vésperas da lei de autarquização do complexo hospitalar, a FAMEMA se viu envolvida na “Operação Esculápio” da Polícia Federal, desmoralizando sua direção frente a possibilidade da administração do HC por uma Organização Social de Saúde (OSS), organizações privadas de direito público com a função de administração hospitalar, não são suficientes para melhorar as condições de ensino e trabalho, bem como de atendimento à população..

Mais do que nunca o sucateamento do complexo FAMEMA ficou escancarado. No entanto, mesmo em meio a esse quadro crônico de crise que a FAMEMA está vivenciando é fundamental que os alunos, funcionários e professores continuem permeando os espaços da Faculdade e lutando para que ela seja cada vez melhor.

E o que esperar para este aniversário e para os próximos 50 anos? Que continuemos lutando por uma educação de qualidade. Que continuemos lutando para fornecer o melhor atendimento possível aos 62 municípios que compreendem a região de Marília. Que continuemos lutando por um atendimento público de qualidade sem permitir a presença do processo de “dupla porta” no Complexo HC FAMEMA. Que continuemos lutando para que a Encampação por uma Universidade ocorra o mais breve possível e, assim, lutar pelo fomento à pesquisa e maior investimento em termos de infraestrutura, como alojamentos para estudantes, maior disponibilidade de livros na biblioteca, presença de um restaurante universitário, por exemplo. Que continuemos lutando pela igualdade de reconhecimento da importância de todos os profissionais de saúde, contribuindo para uma maior convivência entre os futuros enfermeiros e futuros médicos que estudam nessa Faculdade. Que continuemos lutando para que a FAMEMA seja um lugar que possa dar orgulho às 50 gerações que já passaram por aqui e a todas que ainda estão por vir!”